A gastronomia profissional herdou do século passado uma das narrativas mais tóxicas e disfuncionais do ambiente de trabalho contemporâneo: a exaltação do sacrifício pessoal cego como prova máxima de dedicação técnica. Vende-se com orgulho doentio a imagem do chef ou gestor de produção que cumpre jornadas desumanas de dezesseis horas diárias, não se recorda do último fim de semana livre e ostenta anos seguidos sem gozar de férias regulares. Esse comportamento, longe de representar um distintivo de honra, lealdade à brigada ou compromisso com a arte culinária, é o sintoma mais explícito de imaturidade gerencial e falência operacional. Na vida adulta corporativa, o líder que não pode se ausentar por quinze dias sem que a sua cozinha entre em colapso imediato não construiu um império gastronômico de alta performance; construiu uma prisão e tornou-se o principal gargalo de sua própria operação. A necessidade compulsiva de estar fisicamente presente em cada turno de serviço cost...
Gastronomia